Quarta-feira, Maio 31, 2006

Braga-Lisboa


(Perdeu-se um feriado, ganharam-se dois... )

No passado dia 28 de maio celebrar-se-iam 80 anos de uma Revolução Nacional que desceu de Braga a Lisboa para conquistar o país.
Em 1926 um grupo de militares, acumulando raivas contra um regime político de grande instabilidade e descrédito, que conseguia proezas como governos de 3 semanas, inflação de 300% e atentados bombistas para estimular os eleitores em campanha, decidiu pôr termo ao regime.
Reunindo-se em Braga, em torno de um herói da primeira guerra mundial, ao general Gomes da Costa coube comandar a rebelião que foi ganhando apoios por todo o país.

De Braga ao Porto, do Porto a Coimbra, de Coimbra à entrada triunfal em Lisboa, a coluna militar desceu, sob aplausos do povo, a avenida da Liberdade, com Gomes da Costa montado num cavalo branco, como compete ao bom messias sebastianista (outro...)
Com paralelos a outras movimentações semelhantes, não existia um plano coordenado sobre o caminho a seguir. Apenas a vontade de mudar um regime corrupto e ineficaz.
Também em comum com outros golpes militares, rapidamente se desfaz a união entre os golpistas, que vão sendo manietados pelos grupos políticos mantidos na oposição até então.
Acabaria a tropa que vinha impor ordem ao país a recorrer a um professor de Coimbra para impor ordem na tropa.

E o povo que aplaudiu o general no seu cavalo branco (entretanto substituido) aplaudiu igualmente o professor, com a sua aura de pai de familia austero e autoritário.
E o povo continuou a sua vidinha pacata, agora sem bombas e mudanças políticas, à sombra do competente professor, enquanto os militares se remeteram, gradualmente, a figuras de pavoneio protocolar.
E o povo que aplaudiu a revolução nacional teve filhos e netos.
Filhos e netos que se juntaram de novo em aplauso aos militares, estes heróis de outras guerras, com outro general-pavão à sua frente, estes igualmente salvadores da pátria, descontentes contra um outro regime mórbido, que definhara e morrera com a senilidade do velho professor.
De um feriado perdido na primavera ganhámos outro.
Feriado que veio com um brinde com a a restauração do 1º de maio.
O nosso calendário ficou assim a ganhar, com a diferença adicional que o segundo me permitiu escrever tudo isto.

Dos generais-pavões outro paralelo:
ambos foram dirigentes carismáticos, ambos foram rapidamente dispensados e exilados, ambos receberam um posto de consolação (marechal) e ambos restam apenas na memória colectiva como endereços postais.